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Publicado em 10/10/2012, às 11h55
O que o Facebook representa para a sociedade?

Na quinta-feira da semana passada, dia 4, o Facebook atingiu um patamar colossal ao se tornar uma rede que reúne 1 bilhão de internautas no mundo. Isso significa que uma a cada sete pessoas do planeta possui conta no site, ou seja, um sétimo da população da Terra pode ser considerado cliente de Mark Zuckerberg. É um tremendo status para um serviço que começou há menos de dez anos, afinal, o Facebook conseguiu reunir gostos, hábitos e preferências de toda essa multidão.

"O número é realmente impressionante", declara Liráucio Girardi Jr., doutor em sociologia e professor na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Municipal de São Caetano do Sul. O acadêmico considera o fato "um belo casamento entre engenharia da computação e engenharia social".

Serviços como este mostram como a sociedade continua trabalhando para vencer barreiras de expressão. O advento da comunicação em massa, explica o professor, serviu tanto para derrubar a territorialização da comunicação, quanto para criar filtros, pois passamos a depender de intermediários (partidos, donos de jornais, editores, donos de gravadoras, empresários e diretores canais de televisão e rádio etc.).

"O Facebook (e outros antes dele) amplificou o 'express yourself 2.0'. O custo de se produzir e distribuir/compartilhar informação, fotos, filmes, música, poesia, opinião foi reduzido quase que a zero", comenta Girardi. "Zuckerberg parece ter entendido muito bem o significado disso - ou se apropriou bem dessa ideia."

Luli Radfaher, Ph.D. em comunicação digital e professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, acredita que o Facebook ainda vai crescer mais. Muito mais. "Ele está entrando num patamar gigantesco, a caminho de se transformar em algo como Google e Microsoft", disse. "O Facebook é a rede social, as pessoas estão lá para compartilhar, trocar ideias, informações etc., e só ele atende a essas funções plenamente."

Vigia

O Facebook é mesmo um facilitador incontestável no campo comunicacional, prova disso é que a rede forma atualmente 140,3 bilhões de conexões - ou "amizades". Mesmo assim, há outro tema a ser observado no site: ele reúne uma quantidade não revelada de informações, agora sobre 1 bilhão de sujeitos. Isso não é perigoso?

Ambos os especialistas ouvidos pelo Olhar Digital concordam que não há com o que se preocupar em relação à retenção de dados. Para Girardi, o Facebook se vê obrigado a manter uma conduta polida justamente por ser constantemente vigiado. Isso porque a lógica comercial esbarra na lógica da cultura hacker, centrada na informação livre, na descentralização, na desconfiança com relação às autoridades. "A questão é saber até que ponto o Facebook vai conseguir andar no fio da navalha", diz. "Atualmente, ele tem sido forçado a respeitar esses princípios pelos próprios membros da cultura hacker."

Já Radfaher diz que o barulho em torno dos dados chega a ser injustificável, pois o Facebook não é o único com tamanho banco de dados - as operadoras de cartão de crédito, por exemplo, podem saber menos hábitos, mas têm mais poder financeiro sobre cada um de seus clientes. "O problema é outro, porque os dados não são meus há muito tempo; o problema é como eles são usados, pra quem são vendidos e por quê. Eu quero saber o que estão fazendo com minhas informações."

Segundo ele, o ideal seria que os dados fossem todos abertos, ao invés de pertencer a determinados grupos, já que ninguém sabe ao certo o que acontece com o que é publicado na internet.

Educação

Esbarra-se, ainda, noutra questão: as pessoas sabem o que é o Facebook? O professor da USP acha que não, que a maioria dos usuários sabe usá-lo, mas não entende bem o funcionamento dele e o porquê de sua existência. Seria necessário aplicar seriamente a alfabetização digital, que é a compreensão real do que querem dizer as ferramentas.

Por mais que esteja sob vigilância constante - afinal, atente a 1/7 da Terra - o Facebook não passa de um serviço privado, que pertence a acionistas e pode muito bem mudar o que quiser sem perguntar nada a nenhum dos usuários. O Olhar Digital relembrou recentemente alguns dos termos concordados por todos os que resolvem se tornar parte dessa comunidade (veja aqui); são as regras de convivência, que deixam uma coisa bem clara: a rede pode até ser social, mas não é sua.

"A maior parte dos usuários das redes sociais não tem muita noção dos aspectos sociais, culturais, jurídicos ou políticos da rede. Como não tem, também, sobre a maioria dos recursos que usa no seu dia a dia", explica Girardi. "Assim como o Google", complementa Radfaher, "ninguém entende que o Google pertence a alguém, acham que é um serviço público."

Imbatível?

Ainda não se sabe o que acontecerá com o Facebook e até onde vai, só que ele tem lutado para manter os usuários ativos pelo máximo de tempo possível. Isso começou com a adoção da Linha do Tempo, anunciada por Zuckerberg com o propósito de transformar a rede social na "casa" dos internautas. Depois vieram os investimentos maciços em plataformas móveis, pelas quais pode-se levar o site a qualquer lugar.

Para desespero do Google e seu Google+, o Facebook não deve ser substituído por um serviço semelhante, na opinião de Radfaher, mas sim por outra plataforma, algo completamente diferente. A exemplo disso, ele cita a Globo, maior rede televisiva do Brasil, que até hoje não encontrou concorrente à altura - números de audiência comprovam isso - mas aos poucos tem perdido terreno para a internet.

"O Facebook conseguiu aquele tamanho que é bom o bastante, grande o suficiente. Pensa no tamanho daquilo, é muito difícil deixar o Facebook, a dor de sair é muito maior do que a satisfação de estar em outra rede", declara ele, que sentencia: "O valor do Facebook não está nele, mas nas relações que ele criou."

Girardi acha que o fundamental é que os princípios de liberdade na web sejam sempre lembrados, discutidos e defendidos publicamente - nas escolas, nos meios de comunicação, no debate sobre o marco civil da internet, nas reuniões entre amigos. "É preciso que indivíduos e grupos inspirados na cultura hacker participem do debate público e do próprio processo de controle e de inovação que pretende criar um mundo melhor para as pessoas."

Leonardo Pereira (Olhar Digital)

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